Olhares Oblíquos – Clarice Gonçalves

Nesta quinta-feira, dia 30, inaugura a exposição Olhares Oblíquos, da artista Clarice Gonçalves, na Galeria Almeida Prado, com minha curadoria. Às 20hs, farei um bate-papo com Clarice sobre sua obra e os caminhos femininos traçados por ela. Passa lá!

Durante grande parte da história da arte, a mulher ocupou apenas o intocado papel de musa, sem poder protagonizar o próprio traço, o pincel e a tinta que tanto a retrataram. Apesar de atuantes e pioneiras em muitas áreas do conhecimento, não alcançavam a visibilidade ou o reconhecimento. Eram silenciadas. Nas últimas décadas, no entanto, voltaram à cena ocupando ambos os espaços, como artista e como arte dela mesma, proporcionando a si o irreverente ofício de criatura e criador.

O papel de resistência na sociedade atual como sexo feminino e o início da real ingressão à pintura por meio de autorretratos são dois importantes fatores que unem a ancestralidade do gênero de pintoras à obra de Clarice Gonçalves. “Ser mulher, a despeito do que a sociedade te impõe, com machismos e subestimação, é uma forma de militância”, diz a brasiliense, de 33 anos.Clarice nasceu artista muito antes de ingressar no Departamento de Artes Visuais da Universidade de Brasília. Desde pequena, em Taguatinga, cidade satélite da capital do País e até hoje funciona seu ateliê, papel e lápis eram seus fortes aliados e companheiros. Com eles, a menina introspectiva misturava paisagens às sensações, tendo o som das teclas do piano tocadas pela mãe um fio-condutor ao mundo imaginário. “Os acordes me ajudam a chegar a um estado de consciência para criar. Hoje, no entanto, escuto principalmente compositoras femininas, estejam elas ao comando de instrumentos ou no vocal. A maioria delas, contemporânea”, explica.

Com os anos, passou não somente a trazer para as telas questionamentos, entre eles sua própria condição de mulher, mas também o olhar ao outro, por meio de retratos de personagens alheios, pelos quais busca decodificar seu próprio eu. Tais figuras são até hoje uma das forças motrizes da obra de Clarice, que as sequestra de álbuns de famílias, livros, revistas e, por que não, da própria internet, uma técnica própria da atualidade. Assim que os detecta, faz com as massas de tinta a óleo sua interpretação da sensação causada pela imagem diretamente na tela. “A figuração na pintura sempre foi minha principal forma de expressão, de pensar, construir e definir-me como ser humano. Me ajuda a digerir a vida que me rodeia”, diz.

Para compor a pintura, que brinca com a densidade e volume da própria matéria, cria títulos que funcionam como poemas. O intuito aqui não é explicar as pinceladas e sim complementar o pensamento delas por meio de frases capturadas por ela durante o percurso, de uma conversa com a família ao filme que lhe toca. Juntas, elas completam o sentido de sua arte.

lém dos pincéis, hoje Clarice semeia a terra que a rodeia. No amplo lote onde vive com a mãe e a irmã, em uma espécie de comunidade familiar, ela distende sua militância para movimentos como o slow food, para o cultivo de orgânicos e das plantas alimentícias não convencionais (Pancs). Essa natureza cultivada aparece de maneira delicada e vidente em suas telas. “Hoje, diversifico-me, mas não me rendo. Sigo na resistência como profissional, mãe e mulher.”

Olhares Oblíquos
Artista:
Clarice Gonçalves
Curadora: Ana Carolina Ralston
Galeria Almeida Prado: Rua Estados Unidos, 2.096, Jardins
Abertura: dia 30/08, das 18hs às 22hs
Bate-papo a artista Clarice Gonçalves e Ana Carolina Ralston: às 20hs